
O livro Vozes Negras- A arte e o ofício da escrita organizado por Claudia Tate, traz uma coletânea de entrevistas de quatorze autoras negras estadunidenses, por suas prórias vozes. Neste livro, aparecem análises detalhadas e baseadas em fatos sobre como o racismo, o sexismo, o classismo e a lesbofobia se cruzam e atuam juntos na sociedade.
A base literária do livro foi construída através do conceito de interseção, no qual as entrevistas foram formuladas com o intuito de que autoras compartilharssem como conseguem expressar as suas ideias através de seus personagens, situacões específicas e técnicas, além de comentar como os aspectos pessoais das suas vidas se inserem nas obras.
Normalmente, as autoras negras não escrevem pensando apenas em ganhar dinheiro ou reconhecimento. Elas escrevem principalmente por si mesmas, como uma maneira de manter a clareza emocional e intelectual, ajudando no seu crescimento pessoal e na sua formação.Muita das vezes, as escritoras negras são atingidas pelas mesmas atmosfera racial de seu colegas homens, porém por conta do seu gẽnero, suas representações refletem diferenças que podem ser óbvias ou sútis, seja ela no tom, na seleção dos personagens, no cenário ou até mesmo no enredo. Diante disso, as escritoras costumam construir as suas visões em personagens femininas, na qual a incorporação criativa da “protagonista negra” costuma ter diferentes características, em que algumas são originadas em questões de gênero e papeis sexuais, em contraposição, existem protagonistas que refletem o seu processo de observação através de um ponto de vista que não são determinados pelo sexo.
Sendo assim, de acordo com Olsen, a protagonista negra dificilmente vai encenar um papel de uma forateira alienada ou de uma aventureira solitária em busca de sua auto afirmação, não significa necessariamente, que ela não tenha problemas ou preocupaçoes com auto estima ou até mesmo em alcançar uma boa posição social; na verdade significa que a sua busca pela auto descoberta tem prioridades distintas.
Dessa forma, a obra organizada por Claudia Tate revela que a escrita dessas mulheres não é um exercício de isolamento, mas um ato coletivo de memória e resistência. Ao rejeitarem o arquétipo do herói solitário, as autoras negras estabelecem uma nova estética literária, onde a busca pela identidade está intrinsecamente ligada à cura da comunidade e à denúncia das estruturas de poder.
O livro solidifica a ideia de que a literatura produzida por mulheres negras não deve ser lida apenas como “testemunho” ou “sociologia”, mas como alta arte, técnica e politicamente sofisticada. Em última análise, Vozes Negras prova que, ao escreverem sobre si mesmas e para si mesmas, essas autoras acabaram por transformar todo o panorama da literatura mundial, forçando a inclusão de perspectivas que a hegemonia branca e masculina insistia em ignorar.

