
O livro A pele que eu tenho (Skin Again), de Bell hooks, com ilustrações de Chris Raschka, emerge em um contexto de crescente produção literária infantojuvenil voltada à problematização da representação racial e à fomentação de discussões sobre identidade e diversidade. Bell Hooks, intelectual afro-americana de reconhecida relevância nos campos dos estudos de raça, gênero e interseccionalidade, emprega uma linguagem poeticamente acessível para abordar uma temática de complexidade estrutural: o racismo e suas implicações nas relações humanas e na formação do sujeito.
A metáfora da pele constitui o eixo central da narrativa, funcionando como um ponto de partida para a reflexão acerca da dicotomia entre aparência e essência. A autora propõe que a pele é apenas a “porta” para o que reside no interior do indivíduo, desafiando as leituras superficiais e estereotipadas que são a base do preconceito racial. Essa perspectiva alinha-se à proposta pedagógica antirracista contemporânea de desenvolver, na infância, a compreensão de que a cor da pele é um atributo físico, desvinculado do valor ou da capacidade de uma pessoa. Simultaneamente, a obra incita a necessidade de reconhecer a história e a subjetividade que compõem cada identidade racial, recusando a redução do sujeito à sua mera exterioridade.
As ilustrações de Chris Raschka complementam e potencializam a mensagem textual. Por meio de traços expressivos e de um uso assertivo de cores intensas, o artista evoca a pluralidade e o dinamismo da diversidade, aproximando o público infantil do debate proposto por Hooks. A estética visual contribui para a ruptura com a homogeneização estética frequentemente presente na literatura infantil tradicional, que historicamente invisibilizou personagens negros ou os representou de forma estereotipada.
Como contribuição para o campo da literatura infantojuvenil, A pele que eu tenho rompe com paradigmas hegemônicos ao centralizar a experiência negra na narrativa e ao convidar à empatia e à valorização da diferença. A obra, dessa forma, configura-se como uma ferramenta pedagógica de alta relevância para a formação de crianças críticas e conscientes sobre questões raciais e sociais, alinhando-se às demandas por uma educação antirracista e inclusiva.

